Todo mundo tem “fobia social” agora?

De uns tempos para cá, virou quase cool dizer: “eu tenho fobia social”. A frase aparece com leveza, às vezes até com humor: “não gosto de sair”, “odeio gente”, “prefiro ficar no meu canto”. Meu sofá, minha série, meu celular, minha senha IA. Parece inofensivo quase um traço de personalidade.

Mas será que estamos falando realmente de fobia social?

É importante fazer uma distinção. A fobia social, ou transtorno de ansiedade social, é um diagnóstico clínico sério, que envolve sofrimento intenso, sintomas físicos e prejuízos significativos na vida da pessoa. Isso exige cuidado, acompanhamento e responsabilidade ao falar sobre o tema.

O que vemos hoje, porém, muitas vezes não é exatamente isso. O que cresce é uma dificuldade de convivência. Um cansaço social. Uma insegurança emocional que vai se instalando de maneira silenciosa.

Vivemos na era do “meu”. Minha casa. Minhas roupas. Meu streaming. Minhas compras. Meu jeito. Minha bolha. A tecnologia nos trouxe autonomia e conforto, mas também reforçou uma ideia perigosa: a de que podemos viver quase sem o outro. Assistimos sozinhos, trabalhamos sozinhos, pedimos comida sozinhos, nos distraímos sozinhos. A vida vai ficando cada vez mais individualizada.

Só que o ser humano não se constitui sozinho. A psicanálise nos lembra que o sujeito nasce na relação. É no olhar do outro que nos reconhecemos. É na linguagem compartilhada que nos tornamos quem somos. O “eu” não surge isolado ele é tecido no encontro. Quando o encontro diminui, algo em nós começa a enfraquecer.

Ao mesmo tempo, nunca fomos tão expostos à comparação. Redes sociais, vitrines digitais, vidas editadas. Corpos perfeitos, casas organizadas, viagens internacionais, carreiras brilhantes. E diante disso, surge uma pergunta silenciosa e constante: “eu sou suficiente?”

Então começam as justificativas para evitar o encontro: não estou magra o suficiente, não sou rica o suficiente, não tenho sucesso o suficiente, não sou interessante o suficiente. Melhor não ir. Melhor não me expor. Melhor não encontrar aquele grupo.

Na psicanálise, falamos do ideal do eu essa imagem de quem acreditamos que deveríamos ser. O problema é que, na cultura atual, esse ideal ficou alto demais. E quanto maior o ideal, maior a sensação de fracasso. O encontro social deixa de ser troca e passa a ser avaliação. Não parece mais um espaço de convivência, mas um palco onde preciso provar algo.

A insegurança emocional vai sendo construída nesse cenário. Ela não nasce do nada. Ela se forma quando o convívio diminui, quando a comparação aumenta, quando o erro vira vergonha e quando o desempenho vale mais do que a presença. Se cada encontro parece um teste, o corpo aprende a evitar. E o que chamamos de “fobia social” pode ser, em muitos casos, um mecanismo de defesa uma tentativa de proteger um eu já cansado de se sentir insuficiente.

O problema é que o isolamento não resolve essa insegurança; ele a amplia. Quanto menos convivemos, menos prática temos de lidar com frustrações, diferenças e pequenos desconfortos. E quanto menos prática, mais ameaçador o olhar do outro parece se tornar. A convivência exige tolerância, exige flexibilidade, exige aceitar que não seremos perfeitos. Mas é justamente nesse exercício que nos fortalecemos.

Talvez o que esteja crescendo não seja apenas um transtorno, mas um sintoma cultural. Uma sociedade que valoriza performance, imagem e comparação constante inevitavelmente produz sujeitos inseguros. E sujeitos inseguros tendem a se retrair não porque não gostem de pessoas, mas porque têm medo de não serem bons o suficiente para estar entre elas.

Talvez o caminho não seja forçar uma extroversão artificial, nem romantizar o isolamento. Talvez o convite seja resgatar o coletivo em pequenas doses reais. Voltar a conversas imperfeitas, a risadas desajeitadas, a encontros sem filtro. Entender que ninguém está pronto o tempo todo, que todos também carregam suas inseguranças.

A convivência não exige perfeição. Exige presença. E muitas vezes, o que cura a insegurança emocional não é se afastar do outro é reaprender, com gentileza, a estar com ele.

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